Sábado, Junho 21, 2008

És fea

És fea,
levas nos olhos 100 anos de solidão,
levas nos olhos 1001 noites sem dormir
levas nos olhos a secura de quem já não tem lágrimas.

És fea,
levas o ar que nada te derruba
levas o ar pedra, cimento
levas o ar e transportas-te nele.

És fea,
mordes os inimigos
pisas e espezinhas quem se aproxima
transportas contigo o colete à prova de bala, à prova das invasões.

És fea,
profanas o silêncio,
pões desordem no teu discurso,
e no entanto a tua boca é um cofre sagrado.

És fea,
transportas na cara as marcas de uma velhice precoce
e o teu corpo pede que inibas qualquer tentativa de exprimir a criança que ainda há em ti
Trazes pedra e gelo no peito.
Esperas por uma seta qualquer,
por uma vaga quente qualquer que te derreta, que te amanse, que te liberte de ti.

És fea e és presa,
E tens de te libertar das tuas amarras, das tuas raízes, das teias que criaste em teu redor.
És fea e sonhas com o vento. Que és o vento.

Chegou o momento de acordar.

Sábado, Novembro 24, 2007

Procuras

Procuro-te cá dentro e já não te encontro...
Fecho os olhos na esperança de que quando os abrir novamente te sinta outra vez.
Abro os olhos e nada.
Relembro a canção: "Já não tenho coração, já mo tiraram do peito, onde eu tinha o coração nasceu-me um amor perfeito."
Continuo sem te ouvir e sentir cá dentro.
Sigo por trilhos e estradas de pó, durante noites de lua nova nubladas.
Os primeiros raios da manhã são substituidos por fantasmas que insistentemente tentam abrir as janelas.
Já não tenho coração. Tirei-o do peito e perdi-o algures numa estrada sem indicação.

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

O outono chegou...


Quando chegaste, o vento acompanhou-te
e um rasto de folhas coloridas e secas seguiu-te.

Paraste na minha frente,
ajeitaste-me a gola da camisa,
a tua mão quente afagou-me a cara.

Inclinaste-te para mim, disseste adeus
e deste-me um beijo;
a chuva começou a cair
e confundiu-se com as minhas lágrimas.

Segunda-feira, Outubro 22, 2007

Para ti, meu (não) querido silêncio


O silêncio que habita nos nossos lábios
permanece encarcerado na nossa mente
invade as nossas emoções que teimamos incessantemente em esconder.

O silêncio, esse maldito inquilino,
que nos rouba o tempo e não nos paga a renda,
ofende-nos, apaga-nos, suja-nos, torna-nos sombras.

Ao silêncio vou pedir que se cale e que parta para longe.
Porque nem sempre os olhos falam e as mãos nem sempre se podem tocar.

Quinta-feira, Outubro 18, 2007

Vamos


Vamos ficar deitados no telhado
Vamos observar as estrelas, as constelações
Deixamos, quais passivos, as nuvens esconder-nos a luz da lua.

Vamos criar a nossa historia
Vamos fantasiar sobre o nosso futuro
Vamos imaginar como se chamarão os nosso netos.

Quando a noite terminar
vamos voltar para a sala, vamos nos sentar na carpete.
Abraçados, juntos ao sofá, vamos nos dar por vencidos pelo cansaço.

E amanhã vamos criar uma caixa de recordações com fotos, cartas rasgadas, flores secas e os bilhetes daquele concerto que fomos.
Vamos unir-nos com um fio vermelho como naquele filme japonês
Para que o mundo se aperceba.

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

Noite III (e o que se segue)



Pela manhã, chovem as cinzas da minha vida, como fotografias rasgadas, caem como flocos de neve na minha mão. Como pequenos vidros gelados atravessam as minhas mãos inertes. Mas por vezes são fagulhas quentes que me trespassam. Por isso, se olhares para as minhas mãos pela primeira vez não baixes os olhos, toca-as e sente-as como se elas fossem realmente minhas ... A sensação será de descobrir como está o meu coração, por vezes frio, outras vezes quente e acomodado, como que adormecido ... Se sentires as mãos cicatrizadas então é porque já não vivo para ti. A vida tem muito mais sangue para escorrer e sugar, a vida tem muito mais ardor e calor para ser alimentada... Se as minhas mãos já não estiverem lá, não estranhes ...
Parti ...
Mas toda a partida tem o seu regresso, nem que seja por pensamento.
Ao acordar um repentino sentimento de isolamento brota do abrir os meus olhos, mas no instante seguinte se desvanece como poeira no ar.
O dia é frio e a lenha da lareira está húmida da tempestade ocorrida na noite anterior.
Um espelho que se assemelha a um portal do tempo ... Por momentos deixo-me invadir pela sua invasão no meu ser, como virtualidade real, passeio num parque, debaixo dos meus pés vejo tons amarelos, laranjas, vermelhos e castanhos que se quebram como folhas caídas, velhas e ressequidas pelo tempo. As árvores negras cobertas por poucas folhas revoltadas se entrelaçam paralelamente, abrindo assim um túnel mágico de tons de Outono. Ao longe vejo um vulto ... um vulto alto e distante ... De costas para mim ...
De repente voltas-te para mim, sorris e acenas-me, acendes um cigarro, e envolves-te nele uma vez, e mais outra ... até que te perdes no meio da névoa de nicotina ... e eu ... cada vez mais afastada de ti
O som da máquina de café acorda-me para a realidade. Por momentos não reconheço o sítio onde estou. Tudo à minha volta é tão incerto e irreal, que o sono me chama e implora pela minha presença ... O sabor do café quente, e o ronronar da persa a meus pés traz-me de volta ao mundo sombrio de inverno. Olho pela janela e as árvores estão verdejantes, as flores crescem sem sentido de desordem e tudo parece artificialmente perfeito.
O dia impõem-se e a ordem destabiliza uma noite de sono e começa uma antiga luta angelical entre a vontade de permanecer e o dever de laborar.

Noite II


A noite estremece quando o seu fim se anuncia, as estrelas perdem o seu brilho quando num grito ouvem a sua morte anunciada ... Lentamente, uma a uma, se desfazem como areia dourada de deserto, pelo vasto universo.
Um novo dia se impõem, e ameaça os corpos cansados da luz intensa que exteriormente os queima. Durante a noite preferem a luz das velas para os guiarem.
Corpos esgotados de procurar, de investir, de sonhar, por momentos tornam-se reais, e ao tocarem-se de maneira tão intensa e com tanta sede de fogo, incendeiam-se incandescentemente. Tornam-se corpos fogosos que lutam numa batalha composta de tréguas e desencontros ... Os olhos porém permanecem sempre cerrados, de dia pela cegueira do amor, à noite pelo medo da convenção ...
Corpos que se encontram e que entram em concordata, em sintonia mal esperada, procuram-se na escuridão obstruída pela música, encontram-se na rua escondida e estreita, encontram-se entre olhares na multidão e consomem-se num só trago ... O copo, vazio, enchido vezes sem conta é ingerido pelos mais esquecidos ...
Loucos esgotam as vozes num silêncio em uníssono, cansados do toque angustiado, adormecem num sono unido ...